A implementação do Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050, a integração numa NUT II e o aumento do investimento na cultura são três chavões essenciais para o desenvolvimento da região da Arrábida segundo Francisco Ferreira, Aníbal Mendonça e Carlos Sargedas.

TEXTO ELOÍSA SILVA IMAGENS DR

Sem Mais Jornal, 14-09-2019

Os clubes Rotáríos de Palmeia, Sesimbra e Setúbal promoveram, na igreja de Santiago, no Castelo de Palmeia, um colóquio conjunto subordinado a um tema que é comum aos três territórios; “Marca Arrábida Ambiente, Turismo e Qualidade de Vida, com desenvolvimento sustentável”.

Francisco Ferreira, presidente da Zero, Aníbal Mendonça, fundador do movimento cívico contra a coincineração e membro do movimento “Pensar Setúbal”, e Carlos Sargedas, presidente da Arrábida Film Comission e diretor no festival Finisterra foram os oradores da sessão durante a qual se abordaram questões como a descarbonização, desperdício de energias renováveis e falta de investimento na cultura cinematográfica como motor de atração turística.

A presença da cimenteira Secil no enredo paisagístico da serra da Arrábida, o ineficaz aproveitamento do sol como recurso natural, a ameaça das dragagens, o abandono a que a região votou algum património histórico e a desinformação sobre realizadores e atores que deram visibilidade a esta região enquanto cenário para filmes e novelas de sucesso, foram os pontos negativos enaltecidos pelos três ora
dores.

Ainda assim todos acreditam que é possível alterar este paradigma e fomentar um desenvolvimento sustentável com as pessoas e pelas pessoas, para diminuir a dimensão e impacto da pegada ecológica.

Futuro da sustentabilidade passa pelo eco design

Francisco Ferreira enalteceu que o “desígnio da descarbonização é absolutamente crucial”, fazendo referência ao roteiro para a neutralidade carbónica, aprovado por este governo, e que prevê a redução das emissões de gases com efeito de estufa “por forma a que o balanço entre as emissões e as remoções da atmosfera seja nulo em 2050”.

O engenheiro do ambiente e professor universitário, que antecipa “um futuro complicado” para a Secil, devido ao pagamento do carbono a 26 euros a tonelada, reforça a necessidade de “descobrir outro tipo de materiais que não os carbonatos de cálcio que levam às emissões de dióxido de carbono para além da combustão”. A “única hipótese”, sublinha, “é começar a desenhar e utilizar o chamado eco design”, o design sustentável.

Referindo-se a uma das regiões “com mais potencial nas áreas industrial, científica e turística”, Aníbal Mendonça lamenta que a península de Setúbal não só não esteja a contribuir para o país com uma riqueza patrimonial e histórica valiosíssima, como esteja, inclusive a perder milhões de euros de apoios comunitários».

Para Aníbal Mendonça a criação de uma nova NUT II (unidade territorial para fins estatísticos de segundo nível), na Área Metropolitana de Lisboa, permitiria a promoção de políticas de discriminação positiva na região e contrariaria a tendência de desinvestimento.

No seguimento da ideia de Francisco Ferreira, de uma utilização muito mais proveitosa dos recursos naturais, o fundador do movimento cívico contra a coincineração mostrou-se preocupado com a qualidade da água doce que vai ser “preciosa para o futuro”.

Sol e Água são recursos mal aproveitados

“A Ex Portucel consome mais água doce que a cidade inteira de Setúbal. E nós sabemos que a água doce vai ser um produto estratégico para o futuro. Vai ser mais estratégico do que é hoje o petróleo. Neste momento nós temos o lençol freático da Mitrena a ser sugado pela Portucel e a ser conspurcado com Um aterro sanitário em cima do lençol. Apesar de dizerem que estão garantidas todas as condições eu não acredito”, vincou Aníbal Mendonça.

Apesar dos aspetos menos positivos identificados e partilhados, pelos oradores e pelas dezenas de participantes no colóquio, Carlos Sargedas demonstrou que “o turismo global tem aumentado de dia para dia” e acredita que “a identificação dos lugares, através de produções cinematográficas, é um dos principais fatores para esse crescimento”.

“É uma tendência crescente, entre os viajantes, visitar destinos famosos onde cenas de filmes foram filmados. A Região da Arrábida tem sido, desde há muito, um desses locais cinematográficos. Mas sem informação, nada acontece”, lamentou.

Sendo Portugal, e particularmente os territórios do distrito de Setúbal, “um dos destinos mais atrativos para filmagem de cinema e novelas, como é que ainda não há roteiros com informação sobre que filmes ou novelas foram filmados aqui? Como é que não há vontade para aproveitar este nicho que é o cinema como oportunidade para o turismo?”, questionou.

Cultura não pode continuar a ser o parente pobre

No entanto, parece haver, por parte do governo, um despertar para esta oportunidade. Foi criada este ano a Portugal Film Commission, que nos próximos três terá que definir um modelo de gestão e, ao mesmo tempo, promover o país como destino de filmagens, em ritmo “contrarrelógio” e “sem margem para erros”. “O estado dá um milhão a quem investir três”, esclareceu o presidente da Arrábida Film Comission que também integra esta nova estrutura.

“Se pensarmos num investimento de 50 milhões, sabemos que a maior parte das autarquias não tem essa capacidade. Então os municípios têm que se juntar e suportar o custo entre elas para que esta mudança de mentalidade possa trazer dividendos a todos nós, de forma sustentada e de forma percentual”.

Como alternativa, Carlos Sargedas sugere a criação de “aplicações de telemóvel que podem ser, facilmente, usadas por turistas e residentes, e que indicam que num determinado sítio foi filmado tal filme”. Mas até esse dia chegar “a cultura tem de deixar de estar no fim. No fim dos jornais, no fim dos blocos de notícias, no fim das escolhas de programas de fim de semana. Na vida, a cultura é no fim, quando tudo começa na cultura”, lembrou.